Entrevista: Paris Jackson na capa da revista de moda Harper's Bazaar
A morte de Michael Jackson, há oito anos, quando Paris Jackson tinha apenas 11 anos, deixou marcas profundas nela. Paris tentou tirar a própria vida várias vezes, chegando a passar por tratamento aos 15 anos. Ela afirma que “sempre fui a garota esquisita”. Quando perguntam se gostaria de ter filhos um dia, ela hesita antes de responder: “Talvez no futuro. Mas só de pensar em trazer mais vidas para o mundo em que vivemos hoje… fala sério? Prefiro poupá-los de todas as lágrimas e do drama.”
Mas Paris deixou essa fase da vida para trás e hoje está sóbria e em um momento mais estável. Ela também carrega uma enorme herança — tanto financeira quanto simbólica. E, como diria Jane Austen, uma jovem em posse de uma grande fortuna inevitavelmente acaba em busca de uma carreira. E de uma plataforma. “Eu sempre quis seguir meu próprio caminho e fazer as coisas do meu jeito, porque valorizo muito a minha independência”, diz Paris Jackson. E, apesar de ter crescido no icônico Rancho Neverland, Paris Jackson agora vive em um canto comum e anônimo de Los Angeles.. Sua base fica em alguma parte do Valley, em Los Angeles, perto de uma rodovia. A paisagem ali não é muito diferente do deserto logo adiante: monótona, interminável. Quadra após quadra de casinhas simples, cortadas por avenidas largas cercadas de strip malls e pequenos centros comerciais. É o tipo de lugar que muita gente sonha deixar para trás ao seguir carreira artística.
Comparando o endereço que estava no meu celular com o do portão da casa ao lado, decido que, mesmo os números não batendo, vou ter que arriscar e torcer que seja aqui o lugar. Câmeras enferrujadas me espiam por entre a folhagem. O interfone é uma placa de metal liso, como se os números tivessem sido apagados pelo toque de incontáveis dedos ao longo dos anos. O portão range ao se abrir, e eu sigo cauteloso pela entrada de asfalto esburacada, passando por uma grande casa no estilo Tudor com torres. Um pouco mais à frente, cruzo com um homem calado, vestindo só a calça de uniforme de segurança. Ele mal olha na minha direção enquanto passa caminhando devagar. E, mais uma vez, pensei: quem é que realmente cuida desse lugar aqui?
Literalmente. Cheguei ao que parece ser uma praça de vilarejo inglês, completa, com uma floricultura empoeirada ao lado de uma doceria coberta de teias de aranha. Formando um ângulo reto, tem uma espécie de garagem de quartel de bombeiros com quatro vagas, dominada por um relógio gigante antigo.
Aí cai a ficha: eu sei que estou no lugar certo. Este é o antigo condomínio da família Jackson, onde Michael morou nos anos 70 e 80. Escondido atrás das lojinhas fica o estúdio onde ele gravou as demos de alguns dos seus maiores sucessos do início dos anos 80. Em algum momento, ele reformou o lugar como uma espécie de ensaio para Neverland.
Então, como se eu estivesse numa versão alternativa de Neverland, um cachorro gordinho e grandalhão — grande o suficiente para ser ameaçador se quisesse — vem bamboleando na minha direção. Nana?, eu penso. Um cara bonito, com coque masculino, se aproxima. Um dos meninos perdidos, talvez? Não, é o empresário da Paris, o Tom. "Ah, não liga pra ela", diz ele com naturalidade. "Essa é a Kenya. Era a cachorra do Michael".
E de repente a Paris aparece. Ela é exatamente igual às fotos do Instagram: um pouco grunge, sem maquiagem nenhuma. Usa um monte de colares e está sem sutiã. A blusa é de um tom mostarda; a calça jeans é uma que ela usa bastante, já bem desbotada."Oi", ela diz, com a voz mais suave e doce que você já ouviu. Ela abre os braços e nos abraçamos.
Na cozinha modesta, Paris faz chá, andando de um lado para o outro como uma dona de casa orgulhosa. É o primeiro lugar em que ela mora sozinha, o primeiro “lugar de adulta” dela e dá pra perceber que, como qualquer jovem, ela está super empolgada. Ela me entrega uma xícara de chá com leite e, explicando que a cozinha está meio escura porque as lâmpadas estão queimadas, me chama para a sala. Tom Hamilton suspira. "Ela precisa trocar essas lâmpadas", reclama ele.
Paris pode ser a próxima "It girl", mas ela tem que comprar e instalar lâmpadas, como todo mundo. Ela também tem que arrumar a cama. E limpar o quarto dela. "Ai, Paris..." Tom suspira de novo, olhando para a bagunça. "Eu pensei que vocês não viriam aqui", Paris diz com um pouco de culpa. "Por isso nem arrumei". "Não está tão ruim", eu digo. Embora a cama não esteja arrumada, pelo menos os lençóis brancos estão limpos.
Ao longo da parede, ao lado do estúdio de gravação, cuja porta fica escondida atrás de uma tapeçaria, há três violões de tamanhos diferentes, apoiados em suportes, como se estivessem esperando alguém simplesmente pegá-los e entrar para gravar.
Todo mundo só quer falar sobre o meu pai e isso me deixa triste.
Enquanto Paris acompanhava Tom até a saída, ficou claro por que ela escolheu viver ali. O lugar tem ar de uma cápsula do tempo preciosa, com discos nas paredes e pôsteres vintage de rock (em algum momento, chegou-se a cogitar a ideia de abrir o espaço para visitas guiadas pela propriedade) mas, no fundo, transmite mais a sensação acolhedora de uma sala de estar familiar, um ambiente conhecido e seguro.
Paris acende um maço de sálvia. Sentamos no chão, de pernas cruzadas, em frente à mesa de centro. Seu cachorro, Koa, um pitbull resgatado de pelagem tigrada, se aninha entre as almofadas no sofá.
“Quando fui apresentada ao mundo real, fiquei em choque. Foi algo que me abalou muito”, diz Paris. “Não só porque ele é machista, mas também misógino, racista e cruel. Foi assustador pra caramba. E ainda é bem assustador.”
A introdução ao “mundo real” veio depois da morte de Michael Jackson. A vida de infância de Paris poderia facilmente ser dividida entre antes e depois desse momento. O pai foi a figura mais importante da sua vida, aquele que quando ela passou por fases em que queria ser “astronauta, veterinária e enfermeira”, dizia simplesmente para ela fazer o que a fizesse feliz. “Os primeiros 12 anos da minha vida eu estudei em casa”, ela explica e esse detalhe, de fato, é um dos fios centrais da sua história. “Isso significa que todas as minhas interações eram basicamente com familiares ou outros adultos.” As crianças eram incentivadas a conviver com adultos, mas precisavam se comportar como adultos na presença deles e, por sua vez, os adultos não podiam falar com elas como se fossem crianças.
Quando tinha 12 anos, Paris diz que "não tinha habilidades sociais, tive que me forçar a aprender tudo muito rápido.” Mesmo hoje, ela ainda leva uma vida relativamente solitária. “Nos últimos seis anos, tenho aprendido a me comunicar. E acho que fiquei bem nisso.”
Paris arregala seus olhos azuis. Naquele momento, ela parece uma deusa antiga, com as tatuagens vibrantes e o amontoado de colares no pescoço. “Já te ligo de volta, prometo”, diz, com a voz controlada. “Como é?”, pergunta em seguida. Paris tem modos extremamente educados, com um ar sofisticado que parece ter tido convivência com a alta sociedade inglesa. “Não, estou ótima”, insiste baixinho. “Estou super bem.” De repente, ela fica tensa. “Sim, isso vai acontecer; faz parte da vida. Não estou muito preocupada com isso. É, não precisa se estressar”, diz ao telefone, com uma calma quase inquietante.
Ela desliga e joga o celular no sofá, pega uma manta e enrola bem apertado em volta dos ombros. Apesar de ela ter dito que estava bem, fica óbvio que Paris não está nada bem. Ela não está chorando, mas é como se estivesse olhando para dentro, como se estivesse presa em um filme que passa em looping na cabeça dela.
Sugiro que a gente saia um pouco para pegar ar fresco. Sentamos em um muro de tijolos e, por um momento, nenhum de nós fala nada. A grama verde parece quase artificial de tão intensa. Não consigo deixar de pensar em quantas vezes Michael Jackson deve ter sentado olhando exatamente esse mesmo gramado, refletindo sobre o próprio destino quando tinha a idade de Paris.
"Paris?" Eu pergunto. "Você está bem?"
"Tudo o que todos querem falar é do meu pai e isso me deixa triste", ela diz, com um tom melancólico, numa voz tão baixa que quase vira um sussurro.
A pele dela é muito clara, o nariz levemente arrebitado, e ela parece muito jovem, ingênua e, sim, vulnerável. Agora, os dentes quase estão batendo de frio. Esqueça Michael Jackson. Paris precisa comer.
Ao ouvir a menção de comida, Paris parece tomada de uma súbita culpa. “Não tem nada na cozinha”, ela diz, como se estivesse preocupada de que algum dos Garotos Perdidos pudesse entrar e dar uma bronca nela. “Acabei de voltar e não tive tempo de ir ao mercado.” “Você quer ir ao mercado?”, pergunto. Mas logo me ocorre uma ideia melhor. “Vamos almoçar. Vamos ao seu lugar favorito e fazer o que você normalmente faria.”
O que Paris Jackson normalmente faz é sair dirigindo por aí. “Sou meio turista na minha própria cidade”, ela diz, num tom descolado, enquanto pega as chaves. No estilo bem Paris, o chaveiro vem cheio de penas e outras penduricalhos.
Ela acabou de comprar um Jeep verde novinho e já deixou ele com a cara dela. Os bancos estão cobertos com tecidos indianos, de um jeito meio bagunçado e charmoso. Tem um cacto no painel. Mais penas e tiras de couro pendem do retrovisor. O volante tem uma capa florida rosa que eu me apaixonei na hora. “Etsy”, ela explica, prestativa. “Compro tudo lá.”
Enquanto acelera pela entrada, Paris conta que busca inspiração de estilo em Stevie Nicks e Janis Joplin. “Sou obcecada”, diz. “Mas é uma obsessão meio doentia, porque não existe ninguém como elas e nunca vai existir. Elas são lendárias e incríveis.”
Então ela coloca Fleetwood Mac para tocar. Enquanto seguimos dirigindo para o meio do nada, ela começa a relaxar, cantando junto com os Rolling Stones e Simon & Garfunkel. Ela também compõe música. “É bem folk”, diz ela. “Eu adoraria escrever rock, porque é isso que eu curto de verdade. Mas sou boa em coisas tristes e acústicas.”
Mas, naquele momento, Paris está leve, tranquila, até meio feliz. Ela dá um leve soco no meu braço quando vê uma placa de Massachusetts - “um soco por cada placa de outro estado, dois se você estiver mentindo”, brinca.
Ela conta que não se incomoda em ser um pouco mais na dela. Tem um grupo pequeno de amigos, costuma acampar bastante em Joshua Tree, vê o irmão mais velho (“ele é meu porto seguro, meu melhor amigo”) sempre que pode e geralmente dorme vendo séries da Netflix em maratona.
Fiel ao estilo dela, o lugar que ela mais gosta de almoçar fica num prédio de madeira sem nada demais. Ela pede sopa e meio sanduíche; eu peço salada de frango ao curry. Ela faz questão de pagar. O restaurante está pela metade. “Onde você quer sentar?”, pergunto. “Qualquer lugar”, ela diz. “Desde que eu consiga ver a saída.” Sentamos numa mesa perto da porta.
“Então por que você está fazendo tudo isso?”, pergunto a ela. “É uma resposta complicada. É uma sensação de estar fazendo algo importante, algo que realmente importa, que vai impactar as pessoas”, diz Paris. “Muitas vezes eu pensei em simplesmente não fazer nada em público e levar uma vida privada. Mas aí comecei a ver como o mundo está indo. E tenho a sensação de que, a cada ano, tudo só piora.”
Nem todo mundo vai ficar feliz com o que você faz. Se você não está feliz com o que você está fazendo, isso sim é um problema. Se você está feliz, foda-se.Paris Jackson fala assim com frequência, e consegue soar ao mesmo tempo firme e, de certa forma, até inocente. Porque, para ela, isso não fica só no discurso. Ela também tuita e publica vídeos sobre suas posições políticas, incluindo opiniões sobre Donald Trump e sobre o direito das mulheres de escolherem o que fazer com o próprio corpo. “Se houvesse qualquer sugestão de que mulheres estariam controlando o que os homens fazem com os próprios corpos, seria uma Terceira Guerra Mundial”, ela aponta.
A disposição dela em entrar em temas polêmicos faz com que seja muito admirada pelos fãs, especialmente levando em conta o quanto, na indústria do entretenimento, jovens mulheres muitas vezes são aconselhadas a ficar em silêncio para proteger a própria carreira.
Mas, de algum modo, Paris parece estar acima de tudo isso. “Eu sei que tem muita gente que se sentiria muito abençoada por estar na minha posição, então eu quero usar isso para coisas importantes.” Ela baixa a cabeça. “Tenho algumas ideias. Na verdade, tenho várias ideias, mas ainda estou tentando entender a melhor forma de fazer isso. Quer dizer, eu tenho 18 anos. Não dá pra ter tudo muito resolvido, mas eu tenho um plano.” “Você não tem medo dos haters?”, pergunto.
Paris se debruça sobre a mesa, os olhos azuis brilhando. Lembro que, toda vez que sai de casa, ela passa por um pôster vintage de David Bowie como Ziggy Stardust colado na parte de trás da porta. Ela até tatuou o famoso raio no dedo. "Quem liga?" ela pergunta. "Você está na cabeça deles — como isso pode ser ruim? Não importa se estão falando bem ou mal de você. Eles estão pensando em você a ponto de escrever sobre isso. Você simplesmente não pode se importar.”
"Mas e se você se importar?", eu pergunto. Paris me olha com certa compreensão: "Eu costumava me sentir assim", diz ela. "Mas chega uma hora em que você pensa: quer saber? Isso vai acontecer. Nem todo mundo vai gostar do que você faz. Se você não estiver feliz com o que está fazendo, aí sim existe um problema”, diz ela. "Se você está feliz, foda-se." Caralho, penso comigo mesma. Ela está certa.





5 comentários
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ReplyA entrevista para a revista: http://www.harpersbazaar.com/culture/features/a21302/paris-jackson-interview/
ReplyMais imagens da revista
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Acho engraçado o jeito como os entrevistadores descrevem Tim-Tim por Tim-Tim cada detalhe do que está acontecendo em volta e as reações da pessoa entrevistada ! Acontecia as mesmas coisas com as entrevistas escritas de Michael Jackson kkkk
ReplySei lá, mas parece que ela não é nem um pouquinho como o pai imaginou que seria, mas afinal de contas, ela nunca foi, Tem uma entrevista em que o Michael conta que sempre sonhou em ter uma menina, quando ficou sabendo que teria, decorou seu quartinho com muitas bonecas e coisas femininas, mas Paris nunca quis saber de nada disso e preferia os brinquedos do Prince. Não que isso seja ruim, mas demonstra que a gente nunca pode depositar todas as nossas expectativas de realização e felicidade em nada e nem ninguém, afinal, sempre nos decepcionamos, porque mesmo sendo nossos filhos, eles não são a gente e nunca terão exatamente os mesmos ideais !
Me dói saber que ela fica triste quando falam do pai (deveria ter orgulho) mas é compreensível. Prince é tão diferente dela - ele mesmo puxa o assunto do pai, enche a boca pra falar dele e adora que façam a conexão entre um e outro. Sei que a Paris ama o pai e tal... mas ela é tão desgarrada, gosta de artistas que não tem nada a ver com Mike e muitos até falavam mal dele !
É ruim sentir isso, mas eu me sinto estranha lendo as entrevistas da Paris - ao mesmo tempo que fico feliz pelas conquistas dela, é tudo tão diferente que fico chocada. Fico pensando em como Michael se sentiria e não sei se seria uma sensação muito boa. Tenho sentimentos conflitantes por ela e não sei se algum dia vou chegar a uma conclusão, mas de qualquer jeito, eu desejo que Deus sempre a abençoe muito !
Pelo que disseram na entrevista, deram a entender que aquela atitude da Paris correr desesperada no aeroporto foi marketing. Será ? Será que planejaram aquela reação pra dar o que falar e valorizar o passe dela como celebridade ? Se for isso, Meu Deus do Céu, não deveriam manipular assim a cabeça das pessoas !!
ReplyE que história é essa desse empresário que fica andando pela casa dela, mandando nela, controlando a vida dela assim ? Esse tipo de coisa nunca dá certo, tem um monte de histórias tristes com finais trágicos envolvendo celebridades e seus empresários abusivos !!
No caso de ser verdade o que a Paris falou sobre ter sofrido abuso sexual, será que não foi esse cara ? Apesar de parecer óbvio que ela não aceitaria por perto alguém que tenha feito isso, vai saber, né ?